Grazielle Ueno*
O turismo brasileiro atravessa um ciclo de expansão que confirma sua força econômica, mas também impõe um desafio: crescer sem perder identidade. Dados do Ministério do Turismo indicam que o setor gerou mais de 120 mil empregos formais em 2025, enquanto estimativas do WTTC apontam que a atividade representa cerca de 7,9% dos empregos no país, somando aproximadamente 8,2 milhões de vagas diretas e indiretas.
Esses números reforçam o papel estratégico do setor no desenvolvimento nacional. No entanto, em um mercado cada vez mais competitivo e exposto às redes sociais, já não basta oferecer deslocamento, hospedagem e visitação. É preciso entregar sentido, vínculo e memória.
Os negócios turísticos mais promissores serão justamente aqueles capazes de gerar experiências autênticas. O viajante contemporâneo quer mais do que ver pontos turísticos: ele procura histórias, sabores, encontros e contato real com a cultura local. Nesse contexto, o turismo receptivo deixa de ser apenas operacional e assume função decisiva na mediação entre visitante e território. Quando bem estruturado, transforma o destino em experiência e o consumo em pertencimento.
Curitiba é um bom exemplo dessa mudança. Além de sua imagem já consolidada pelo planejamento urbano e pelas áreas verdes, a cidade vem ampliando roteiros culturais, gastronômicos e sensoriais. Também avança na gestão orientada por dados com o Portal de Turismo Inteligente (Poti), que reúne indicadores sobre fluxo de visitantes, rede hoteleira e desempenho do setor. Isso mostra que inovação faz diferença, mas só produz valor quando fortalece a relação entre pessoas, cidade e experiência.
A tecnologia, sozinha, não garante inovação. Sem criatividade, intencionalidade e sensibilidade cultural, ela apenas moderniza a superfície. O diferencial está em conectar visitantes a produtores locais, artesãos, guias independentes e pequenos empreendedores, ampliando a circulação de renda e valorizando saberes do território. É essa rede que sustenta um turismo mais diverso, humano e economicamente equilibrado.
Por isso, insistir em modelos padronizados é um erro. Em um setor marcado por sazonalidade e concorrência intensa, preservar autenticidade deixou de ser diferencial estético para se tornar estratégia de sustentabilidade. Negócios capazes de gerar experiências autênticas não apenas atraem visitantes: fortalecem identidades locais, distribuem melhor os benefícios do turismo e constroem destinos mais vivos, inclusivos e memoráveis.
*Grazielle Ueno é Administradora e Turismóloga, especialista em Educação, mestre em Turismo e Doutora em Tecnologia e Sociedade. Além disso, é professora e coordenadora de curso no Centro Universitário Internacional Uninter.





