Dia Mundial do Turismo: agentes de IA começam a mudar como turistas pesquisam e reservam

Especialista analisa como a automação de jornada pode transformar a escolha de destinos, hotéis e passagens e mudar a disputa pela atenção do viajante

Luiz Moura, conselheiro de turismo da FecomercioSP. Crédito da foto: Kléber Galvão

A inteligência artificial já ganhou espaço no planejamento das viagens, mas uma nova etapa começa a se desenhar: a possibilidade de delegar à tecnologia não apenas a pesquisa, mas também a escolha e a reserva de passagens, hotéis e experiências. Entre os viajantes que conhecem ferramentas de IA, mais de 60% já as utilizam para planejar viagens, segundo levantamento da Skift Research com quase 7 mil pessoas.

No Brasil, o movimento também já aparece no comportamento dos turistas. Pesquisa da Booking.com mostra que 63% dos brasileiros utilizaram ferramentas de inteligência artificial no planejamento ou durante viagens em 2025, e 80% afirmam que pretendem recorrer à tecnologia em 2026. O uso, porém, ainda se concentra nas etapas anteriores à compra: apenas 18% disseram ter utilizado IA para efetivamente realizar reservas.

Às vésperas do Dia Mundial do Turismo, celebrado em 27 de setembro, o avanço da IA no planejamento de viagens abre uma nova discussão para o setor: até que ponto o turista estará disposto a deixar a tecnologia também tomar decisões e realizar reservas em seu nome. Para Luiz Moura, membro do Conselho de Turismo da FecomercioSP e cofundador da VOLL, agência digital de turismo corporativo, essa mudança marca uma nova etapa no uso da inteligência artificial nas viagens, que começa a avançar da consulta para a execução.

“Durante muito tempo, a tecnologia ajudou o viajante a pesquisar mais rápido e comparar mais opções. Agora entramos em outra etapa, em que o sistema pode começar a interpretar preferências, fazer escolhas e executar parte da viagem. Isso muda bastante a relação do turista com hotéis, companhias aéreas, destinos e plataformas de reserva”, afirma Moura.

Os dados mostram que essa confiança ainda varia de acordo com o tamanho da decisão. Entre os brasileiros ouvidos pela Booking.com, 46% se dizem confortáveis em permitir que um assistente de IA faça automaticamente reservas de atividades e passeios e 43%, de restaurantes. O índice cai para 37% quando se trata da escolha da hospedagem e para 32% na compra de passagens aéreas.

A diferença ajuda a explicar por que o avanço dos chamados agentes de IA se tornou um dos principais assuntos da indústria global de viagens em 2026. Diferentemente dos chatbots usados para responder perguntas ou montar roteiros, esses sistemas são desenvolvidos para avançar etapas de uma tarefa e realizar ações em nome do usuário. Em setembro, a Skift destacou que assistentes pessoais de IA começam a incorporar justamente a capacidade de reservar e administrar viagens, o que pode alterar a atual cadeia de distribuição do turismo.

Para Moura, uma das mudanças mais relevantes pode acontecer antes mesmo da compra. Se o viajante deixar de abrir vários sites para pesquisar hotéis, comparar voos e conhecer destinos e passar a pedir diretamente a uma IA que apresente as melhores alternativas, muda também a forma como empresas e destinos disputam a atenção desse consumidor.

Essa transformação já começa a preocupar o setor. Dados apresentados no Skift Data + AI Summit 2026 mostram que apenas 6% dos hotéis aparecem em resultados de buscas realizadas por inteligência artificial. O levantamento também indica que 82% das recomendações de hotéis feitas por IA têm como origem OTAs e conteúdos editoriais, mostrando que ser encontrado e compreendido pelos novos sistemas pode se tornar uma questão estratégica para empresas de turismo.

“Até aqui, a indústria aprendeu a disputar espaço no Google, nas plataformas de reserva e nas redes sociais. A próxima disputa pode ser para entrar na lista apresentada pela inteligência artificial. Isso porque o turista não busca mais apenas por destinos ou hotéis, ele delega muito na conversa com a IA: ‘quero passar as férias em um lugar tranquilo, pé na areia e de fácil acesso para crianças’. Para o turista, isso tende a significar menos tempo pesquisando dezenas de alternativas. Para o setor, significa pensar em como continuar sendo encontrado, recomendado e, principalmente, considerado confiável quando parte dessa escolha passa por um agente de IA”, avalia.

Sobre Luiz Moura

Luiz Moura é co-fundador e Chief Business Officer (CBO) da VOLL, uma solução global e mobile-first voltada à simplificação das viagens e das despesas corporativas. Especialista em Marketing e Gestão de Mercados pela Fundação Dom Cabral, possui formação executiva em Inteligência Artificial pela Stanford Graduate School of Business. É membro do Conselho de Turismo da FecomércioSP e do conselho da Alagev (Associação Latino-Americana de Gestão de Eventos e Viagens Corporativas). Há mais de dez anos, compartilha uma visão de vanguarda sobre novas tecnologias e transformação digital no universo das viagens corporativas.

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